Artigo: A luta antimanicomial e a contra reforma

Leia o artigo na íntegra:

A luta antimanicomial e a contra reforma

…Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não para
Não para não.
Cazuza

Em maio, no Brasil, o movimento da luta manicomial comemora o fim das práticas manicomiais com a lei 10.216/2001, do Deputado Paulo Delgado, que trata do direito das pessoas portadoras de sofrimento psíquico, que acabaria ficando conhecida popularmente como lei da reforma psiquiátrica ou lei antimanicomial.
Infelizmente, as reformas pretendidas com o surgimento do modelo substitutivo aos manicômios ainda não foram plenamente concretizadas, da mesma forma que o SUS ainda não atende a tudo que foi planejado no início do programa.
O problema maior em saúde mental é que a força exercida pelo preconceito e a de igual potência das dificuldades do entorno sobre os transtornos mentais severo, dificulta muito a adesão ao cuidado. Os Caps foram pensados para fazer a chamada “clínica do cotidiano”, para usuários portadores de transtornos mentais severos e persistentes. Tais usuários deveriam frequentar os Caps regularmente, convivendo com profissionais e outros pacientes, participando de práticas terapêuticas, de convivência, de desintoxicação ou passando por atendimentos individuais.
Todas estas dificuldades da rede de cuidados em saúde mental já foram pensadas, discutidas em congressos, avaliadas nos serviços substitutivos, mas a discussão continua a mesma: quem vai cuidar do meu parente portador de sofrimento psíquico? Pode internar para dar um descanso à família? Quem vai atender as pessoas ansiosas, tristes, melancólicas, com insônia?
Tudo isso já foi pensado e existe um fluxo definido desde a atenção básica até o internamento em leito de hospital geral. Mas, constantemente temos que repetir para toda a rede aquilo que foi alvo de discussões nas conferências nacionais de saúde mental, quando este ano teremos a quinta edição.
Em Jacobina temos 22 ESF, rede de atenção básica, Caps II, para usuários portadores de transtornos mentais severos e persistentes, adultos, Caps AD, para pessoas com sofrimento psíquicos decorrente de abuso de álcool e outras drogas, para adultos, estamos implantando um ambulatório de atenção psicossocial e um Caps ia, para crianças e adolescentes. Estamos construindo um Complexo Raps, que comportará os três Caps, espaço de hospitalidade noturna e abrigará um polo formador em saúde mental, pois já acolhemos estagiários da AGES.
Infelizmente, mesmo com os avanços que vimos desde 2005, quando da inauguração do primeiro Caps em Jacobina, parece que ouvimos Cazuza cantando: “eu vejo o futuro repetir o passado, vejo um museu de grandes novidades”. Grande parte da sociedade não quer saber de oferecer cuidados a usuários de substancias psicoativas, especialmente dos pobres. A sociedade ainda parece preferir internar um parente no manicômio a conviver com alguém que necessite de cuidados regulares, especialmente se forem pobres e negros.
Não existe nada a ser inventado, pois ainda não excutamos as práticas de atenção psicossocial propostas pela reforma psiquiátrica, com oferta de cuidados territoriais, espaços de arte, convivência, cultura, esporte e lazer.
A tal crise da pós-pandemia nos mostrou que não aguentamos estar conosco mesmos por muito tempo, com nossa família, sem as sensações exteriores controlando as mentes. Remédios novos e que façam efeito imediato e definitivo são o sonho de quem vive a heteronomia emocional. Mas, como disse o poeta: o tempo não para. Vamos adiante.

Cledson Sady
Membro da Academia Jacobinense de Letras
Diretor de Saúde Mental

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